

Autor: Junior da Silva Lima
A Violência Consome 1 Trilhão do PIB do Brasil. Mas Como Isso Afeta o Seu Bolso?
No final do ano de 2025, “Penélope”, uma mulher de 41 anos, gesticulava, desesperada, com o telefone na mão enquanto saía ao portão de sua casa no município de Belford Roxo, no Rio de Janeiro.
Quando ela viu uma ambulância “dobrar” a esquina e se aproximar de sua casa, pensou, aliviada, que o socorro chegaria a tempo de evitar o colapso neurológico de seu tio, um idoso que havia caído na varanda e jazia desacordado há pelo menos 5 minutos. Quando a ambulância passou direto por ela e entrou numa esquina à direita, a mulher acreditou que o veículo estava apenas manobrando e que estacionaria na porta de sua casa imediatamente. Entretanto, a sirene impetuosa que soara excepcionalmente alto, se tornava cada vez mais sutil, até perder-se nas ruas adiante, tornando-se, segundos depois, inaudita.
Dez minutos mais tarde, quando uma unidade do SAMU finalmente chegou, a mulher descobriu que a primeira ambulância que passara pela sua rua tinha outro destino: um tiroteio com 2 feridos ocorrido num bairro um pouco mais afastado do seu. Foi então que Penélope entendeu o frenesi de diversas viaturas da PM e carros de bombeiros que passaram pela sua rua e seguiram, vorazmente, na direção de um “assalto frustrado a uma carga de bebidas”.
O caso de Penélope não é um evento isolado. Todos os anos, serviços de atendimento de urgência, vagas hospitalares em prontos-socorros e verbas públicas das mais diversificadas naturezas são consumidas pela violência urbana e a criminalidade.
Não à toa, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estimou que o custo da violência (impacto direto e secundário) pode chegar a 11% do PIB brasileiro (dados de 2025), ou seja, cerca de R$ 1 trilhão por ano consumidos na administração dos efeitos gerais da criminalidade. Desse total, apenas 1,3% do PIB é investido diretamente em segurança pública, enquanto o restante engloba perdas econômicas e impactos do crime. Dados semelhantes são reportados pelo Atlas da Violência (2025) e estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
A dimensão do impacto da criminalidade no orçamento público brasileiro assusta ainda mais quando constatamos que apenas o custo direto gerado pela violência equivale a pelo menos 70% do orçamento público destinado à educação (IPEA/2025).
Para além da simbologia dos dados, precisamos entender como isso afeta não apenas Penélope, mas o nosso bolso. Essa demanda voraz pela verba pública, que transforma o recurso orçamentário do Estado numa espécie de refém de tragédias urbanas com grande apelo social, não tem apenas impacto estatístico, mas prático.
Além de diminuir a quantidade de ambulâncias disponíveis para parturientes, idosos e vítimas de mal súbito e de inflacionar a reserva de leitos, ambulatórios e UTIs, a violência tem efeitos muito mais deletérios. Estudos demonstram, por exemplo, que o investimento de indústrias, empresas, comércios e famílias em medidas de vigilância privada (videomonitoramento, blindagem e seguros) consome cerca de 40 bilhões de reais do patrimônio de pessoas e empresas (FORBES, 2024).
No caso da indústria, das empresas e organizações comerciais, esse dado gera um terrível e inflacionário efeito cascata: toda essa verba aplicada em segurança privada se transforma, depois, especificamente para o consumidor, em custos adicionais embutidos no preço final de produtos e serviços. O custo da violência, segundo dados da FORBES (2024), já rivaliza com a carga tributária de alguns produtos e serviços.
Hoje, uma carga de alimentos ou bebida que chega a um supermercado tendo por preço padrão, por exemplo, 50 reais a “unidade por atacado”, possui carga tributária média de 30% acrescida de uma carga oculta relativa ao “custo-seguro”, transformando, por exemplo, um produto individual que poderia ser comercializado a 5 reais, num produto vendido pelo dobro do preço.
Isto é, a criminalidade, além de corroer a estrutura logística da saúde e minar, por exemplo, o orçamento da educação e da segurança pública, corrói o poder de compra das pessoas, penaliza a competitividade mercadológica e freia o aumento da renda média. De fato, se, anos atrás, a violência se parecia mais com uma ameaça que nos espreitava na esquina, e, por isso, era um problema apenas da polícia, hoje, a violência é um problema econômico, que espreita o bolso, não mais a esquina.
Investir (muito) na polícia não é mais uma política pública de segurança, é uma política de desenvolvimento econômico e sustentabilidade social.
JUNIOR DA SILVA LIMA é (i) Mestre em Filosofia e Teoria do Conhecimento; (ii) Pós-graduado em Direito Penal e Processo Penal; (iii) Pós-graduado em Ciência Política; (iv) Pós-graduado em Engenharia de Software; (v) Pós-graduado em Direito Constitucional; (vi) Especialista em Polícia e Segurança Pública; (vii) Escritor e Editor
Imagem gerada por inteligência artificial
Conhecimento Jurídico Aplicado
© 2024. Todos os direitos reservados.


